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Empresa familiar: quando os problemas da família começam a afetar o negócio


Uma empresa familiar nasce, muitas vezes, de um sonho.


Um casal que decide empreender. Um pai que começa um negócio e, anos depois, chama os filhos para trabalhar. Irmãos que constroem juntos uma empresa. Uma família que transforma seu trabalho em patrimônio para as próximas gerações.


Existe uma força enorme nesse modelo.


Mas também existe um desafio que muitas empresas familiares enfrentam silenciosamente: onde termina a família e começa a empresa?

Quando essa fronteira não está clara, problemas familiares podem começar a afetar decisões empresariais, e decisões empresariais podem começar a gerar conflitos familiares.


É nesse ponto que a governança deixa de ser um conceito reservado às grandes corporações e passa a ser uma necessidade também das pequenas e médias empresas familiares.


O dinheiro da empresa é da família?


Uma das situações mais comuns é a mistura entre patrimônio empresarial e patrimônio pessoal.


Um almoço pago pela empresa. O cartão corporativo utilizado por um familiar. Uma retirada sem registro. Uma despesa pessoal lançada como custo empresarial.


Isoladamente, algumas dessas situações podem parecer pequenas.


O problema surge quando não existem regras.


Quem pode utilizar o dinheiro da empresa?


Quem pode autorizar uma despesa?


Quanto cada sócio pode retirar?


Como os diretores prestam contas?


Familiares que não trabalham na empresa podem ter acesso aos recursos?


Sem respostas objetivas, cada pessoa passa a agir de acordo com aquilo que considera correto.

E é justamente aí que começam os conflitos.


O problema nem sempre é a pessoa. Muitas vezes, é a falta de regra.


Em uma empresa familiar, é comum ouvir:


“Mas sempre fizemos assim.”


“Ele é meu filho.”


“Ela é minha esposa.”


“Somos todos da família.”


Essas frases fazem sentido dentro da relação familiar.


Mas uma empresa precisa também de critérios empresariais.


Dentro da organização, o filho precisa saber qual é sua função. O sócio precisa saber quais são seus limites. O diretor precisa prestar contas. A despesa precisa ter finalidade. A retirada precisa ser registrada.


Isso não significa eliminar a confiança.


Significa proteger a confiança por meio de regras claras.


Família, propriedade e gestão não são a mesma coisa


Uma das bases para profissionalizar uma empresa familiar é compreender que existem três dimensões diferentes:


Família: relações, vínculos, valores e expectativas.


Propriedade: quem são os sócios e quais são seus direitos e responsabilidades.


Gestão: quem administra a empresa, toma decisões e executa as atividades.


Quando essas três dimensões se misturam completamente, surgem situações como:


* um familiar ocupar um cargo apenas por ser da família;

* um sócio tomar decisões sem consultar os demais;

* despesas pessoais serem pagas pela empresa;

* conflitos familiares influenciarem decisões comerciais;

* filhos entrarem na empresa sem definição de responsabilidades;

* ausência de critérios para remuneração e distribuição de resultados.


A profissionalização começa quando cada dimensão passa a ter regras próprias.



Governança não significa burocratizar a empresa


Esse é um dos maiores equívocos.


Governança não significa criar uma empresa cheia de documentos, reuniões intermináveis e processos difíceis.

Governança significa estabelecer clareza.


Clareza sobre:


* quem decide;

* quem executa;

* quem aprova;

* quem presta contas;

* quem pode utilizar os recursos;

* como os sócios retiram dinheiro;

* como os familiares entram na empresa;

* como os conflitos são tratados;

* como decisões importantes são registradas.


Quanto mais clara for a regra, menor será a necessidade de discutir pessoas.

E quando um problema pessoal começa a afetar a empresa?


Esse é outro ponto sensível.


Imagine uma empresa que precisa de financiamento, mas uma situação relacionada a um dos sócios interfere na análise de crédito.


A primeira reação pode ser procurar um culpado.


A abordagem de governança é diferente.


É preciso entender:

Qual é exatamente o problema?

A restrição está na empresa ou no sócio?

O banco está exigindo uma garantia pessoal?

Existe outra alternativa de financiamento?


A empresa possui fluxo de caixa suficiente para assumir uma nova dívida?


A dificuldade de crédito é realmente o problema ou é consequência de uma estrutura financeira que precisa ser revista?


Governança significa transformar situações emocionais em questões que podem ser analisadas, documentadas e decididas com critérios.

A empresa familiar precisa de regras antes de precisar de conflitos


Muitas famílias só procuram ajuda quando o problema já se tornou grande.


Um sócio quer sair.

Irmãos deixaram de se falar.

Filhos estão disputando espaço.

O caixa da empresa está comprometido.

As despesas pessoais se misturaram às empresariais.

Ninguém sabe exatamente quanto cada sócio retirou.

O fundador não consegue delegar.


Nesse momento, organizar a empresa é muito mais difícil.


Por isso, governança não deveria ser vista como uma resposta a uma crise.


Ela deveria ser uma estratégia de prevenção e continuidade.


Cinco perguntas que todo empresário familiar deveria responder


1. Está absolutamente claro o que é dinheiro da empresa e o que é dinheiro da família?

2. Todos os sócios sabem quanto a empresa movimenta, quanto deve e quanto gera de resultado?

3. Está definido quem pode tomar cada tipo de decisão?

4. Existem regras para a participação de familiares na empresa?

5. Se o fundador precisasse se afastar amanhã, a empresa conseguiria continuar funcionando?


Se algumas dessas respostas forem “não”, talvez a empresa já tenha um problema de governança.


Profissionalizar não significa deixar de ser uma empresa familiar

Pelo contrário.


Uma boa governança pode ser justamente o que permite que uma empresa continue familiar por muitas gerações.


A família continua sendo família.


Os valores continuam existindo.


A história continua sendo respeitada.


Mas a empresa passa a funcionar com regras, responsabilidades, transparência e critérios.


Porque preservar o negócio também é uma forma de preservar a família.

E talvez essa seja uma das maiores lições da governança em empresas familiares:


Não precisamos escolher entre família e empresa. Precisamos aprender a criar regras que protejam as duas.


Por onde começar?


Não é necessário transformar tudo de uma vez.


O primeiro passo pode ser simples:


mapear como a empresa funciona hoje.


Quem decide?

Quem gasta?

Quem presta contas?

Quem tem acesso ao dinheiro?

Como os sócios retiram recursos?

Quais familiares trabalham na empresa?

Quais regras existem — e quais existem apenas na cabeça dos fundadores?


A partir desse diagnóstico, é possível construir uma estrutura de governança adequada ao tamanho e à realidade de cada empresa.


Porque cada família tem sua história.

Mas toda empresa familiar precisa de algo em comum:


clareza suficiente para que os relacionamentos familiares não precisem carregar sozinhos o peso de administrar uma empresa.



Por Juliana Onzi

Gestão, Governança e Profissionalização de Empresas Familiares


 
 
 

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